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As Peripécias do Ratinho Detetive - Analise A Era das Trevas Geek Antenado

A Era das Trevas da Disney | As Peripécias do Ratinho Detetive (1986)

Quando as pessoas pensam nas palavras “renascimento da Disney”, a cabeça delas vai imediatamente para A Pequena Sereia, de 1989. Isso não está errado, A Pequena Sereia realmente foi a responsável por dar início ao período que se estenderia por toda a década de noventa onde o estúdio de animação fundado por Walt Disney décadas antes se reergueria após anos amargurando fracassos e voltaria a dominar o mercado tanto crítica quanto financeiramente. Mas antes de A Pequena Sereia, veio As Peripécias do Ratinho Detetive.

Poucos saberiam apenas olhando para ele, afinal o filme nem de longe tem a fama de A Pequena Sereia e foi quase que praticamente esquecido pelo grande público, mas esta obra sobre Sherlock Holmes na forma de um rato foi imprescindível para limpar a bagunça em que o departamento animado da Disney se encontrava após o fracasso retumbante que foi O Caldeirão Mágico, e ao menos começar a cimentar a base aonde os filmes que vieram depois se ergueriam.

E falando em O Caldeirão Mágico, como se o meu texto de meia hora sobre o mesmo não fosse o suficiente, nós ainda temos que discutir sobre a obra, porque, claro, um fracasso daquele tamanho não é varrido para debaixo do tapete do dia para a noite, tendo deixado muitas rachaduras na fundação da Disney que não seriam tão facilmente reparadas. Diversas demissões tiveram que ser feitas para arcar com os custos perdidos com a obra, e, para se ter uma noção, muitos acreditavam que aquele seria o fim do departamento de animação da companhia, o departamento que deu o pontapé inicial para que todo o resto fosse possível, e que após décadas fazendo história e quebrando recordes, parecia ter chegado ao seu nem um pouco glorioso fim.

Foi Roy E. Disney que defendeu pela permanência do departamento, argumentando que ele era a alma e a base da companhia de seu tio e de seu pai, e Michael Esiner, o então presidente, ouviu seu pedido. No entanto, muitas mudanças tiveram que ser feitas no departamento a partir de então, e a principal dela foi a mudança de locação do mesmo. Os animadores foram tirados do prédio designado a eles, junto ao conglomerado da Disney em Burbank, o mesmo prédio onde Walt Disney realizou clássicos como Pinóquio e Cinderela, e este foi dado para o departamento de cinema live-action, que era o que estava dando retornos para a companhia e crescia cada vez mais. Ao invés, os animadores foram relocados para Glendale, a três quilômetros de distância do resto das atividades da companhia, em um aglomerado precário de armazéns, galpões e trailers.

O que foi visto por muitos como o começo do fim do departamento era, na realidade, o ponto de partida para uma nova fase, mas isto não quer dizer que o processo de transição tenha sido menos tortuoso. Os animadores foram essencialmente postos em um limbo, punidos por seus trabalhos tão abaixo do esperado, e forçados a entregarem um trabalho de qualidade a qualquer custo se quisessem manter seus empregos. E sobre essa pressão enorme e condições de trabalho pouco gentis, surge As Peripécias do Ratinho Detetive, em 1986.

Mas, para deixar claro, As Peripécias do Ratinho Detetive não foi o primeiro filme feito sob essas condições, apenas o primeiro a ser lançado. O filme já vinha se desenvolvendo paralelamente com O Caldeirão Mágico, e, aliás, este outro pegou a ideia de usar CGI diretamente da obra do roedor investigador, ou seja, na realidade o verdadeiro primeiro filme da Disney a utilizar o uso de computadores para auxiliar na animação foi Ratinho Detetive, no clímax final do mesmo, ambientado nas engrenagens do Big Ben. No entanto, apesar de o roteiro da obra já estar sendo trabalhado há uns bons quatro anos, a animação propriamente dita foi concluída no período recorde de um ano apenas.

A ideia de fazer um filme baseado em Sherlock Holmes, com animais, começou a ser discutida dentro da Disney ainda durante a produção de Bernardo e Bianca, baseado na série de livros infantis Basil of Baker Street, de Eve Titus. No entanto, o projeto foi engavetado por compartilhar similaridades demais com o filme dos camundongos, apenas para ser resgatado em 1982 pelos animadores Ron Clements (que já havia feito um curta animado baseado em Sherlock Holmes, no começo de sua carreira) e John Musker. Ambos haviam saído diretamente de O Caldeirão Mágico, por estarem insatisfeitos com o rumo que a obra estava tomando.

De origem humilde, esses animadores trabalhariam juntos pela primeira vez neste filme, e poucos sabiam que este seria o início de uma parceria responsável por filmes como A Pequena Sereia e Aladdin. Junto com o roteirista Pete Young, Clements ficou responsável pela história da obra, enquanto que a Musker foi atribuída a direção, em conjunto com Burny Mattinson, além do codiretor, Dave Michener, todos dessatisfeitos com o rumo que o projeto do caldeirão estava indo e buscando uma alternativa.

Quando Ron Miller foi deposto e Michael Eisner assumiu o topo da Disney, Musker e Clements tiveram que reapresentar o que eles estavam trabalhando não só para Eisner, mas também para Jeffrey Katzenberg, responsável pelo departamento cinematográfico do estúdio (Roy Disney também estava presente). Ambos reclamaram da lentidão da história, mas, similarmente aos animadores, resolveram manter o filme vivo, por ser diametricamente oposto ao problemático Caldeirão Mágico, com sua história direta e leve. Ainda assim, mudanças tiveram que ser feitas, ou, melhor dizendo, cortes.

A duração da obra reduzida para meros setenta e quatro minutos, o orçamento caiu de vinte e quatro milhões para dez (mas acabou custando catorze) e, o principal, a estreia caiu para um ano antes, do natal de 1987 para o verão de 1986, dando à obra, como dito, apenas um ano para que toda a sua produção se completasse. Para isso, indo pela via contrária, o número de diretores aumentou, com Ron Clements assumindo a direção. O fato de o filme ter conseguido se completar tão rápido em grande parte tem que ser atribuído ao uso revolucionário de computadores para auxiliar a animação — como citado, a primeira vez que a Disney havia testado com eles em um de seus longas animados.

Mas uma das mudanças que mais foi alvo de polêmicas entre os animadores foi a envolvendo o título do filme, que deixou de ser o atribuído às obras literárias em quais se baseou, Basil da Rua Baker, em tradução livre, e foi trocado pelo mais literal As Peripécias do Ratinho Detetive. Irritado com esta troca, um dos animadores escreveu um comunicado, se passando por um dos chefões do estúdio, dizendo que a partir daquele momento, todos os títulos dos filmes da Disney seriam trocados; Branca de Neve e os Sete Anões seria Sete Homens Pequenos Ajudam uma Menina, Cinderela seria A Garota com Sapatos Transparentes, e etc. Essa pequena piada gerou turbulência entre as paredes do estúdio, com os chefões não tendo gostado nem um pouco da mesma.

As coisas pioraram ainda mais quando O Caldeirão Mágico finalmente estreou, e o caos se instalou. A Disney estava à beira da falência graças a tudo o que havia perdido com aquele único filme e, mais uma vez, o futuro do departamento de animação da mesma crescia cada vez mais incerto. Do nada, toda uma responsabilidade foi colocada sob as costas de As Peripécias do Ratinho Detetive, aquele filme modesto, curto e barato, e que agora precisava urgentemente ser um estouro de bilheteria, ou ao menos fazer o suficiente para que a outrora gigantesca companhia pudesse arcar com seus prejuízos.

E bem, funcionou.

Eu não estava exagerando quando disse que As Peripécias do Ratinho Detetive é diametricamente oposto a O Caldeirão Mágico. Enquanto aquele filme era ambicioso, cinemático, e completamente bagunçado e mal trabalhado, este vai pela via contrária, sendo extremamente simples, mas ganha brilho em sua execução. Nos atentemos à premissa:

O filme conta a história de Basil, o ratinho detetive do título, que nada mais é do que a versão roedora de Sherlock Holmes. Quando um cientista é raptado, sua filha, Olivia, precisa pedir ajuda ao detetive para que ele o encontre. Juntos, os dois, na companhia do amável Dr. Dawson, descobrem que o pai da garota havia sido sequestrado pelo terrível Professor. Ratagão, mestre do crime e arqui-inimigo de Basil, que planeja se utilizar das habilidades científicas do pai de Olivia para dominar Londres.

Como podemos perceber, a história de O Ratinho Detetive é extremamente simples, uma típica narrativa de perseguição e mistério, cujo conflito central é a disputa entre o bem e o mal, simbolizados, respectivamente, em Basil e Professor Ratagão. Como eu havia dito, é uma história bastante simples, sem maiores inovações ou nada que já não tenhamos visto antes, mas é na execução que o filme realmente brilha. Neste sentido, ele até se aproxima mais dos filmes mais antigos da Disney, que também eram extremamente simples em sua narrativa, mas a executavam de maneira exemplar, fazendo com que aquelas histórias simples se tornassem extremamente cativantes e divertidas de se acompanhar, algo que fazia tempo que não víamos vindo do estúdio, com filmes como o já citado Caldeirão Mágico, e até O Cão e a Raposa, que, mesmo que conceitualmente muito interessante, pecava justamente em sua execução.

E antes dessas duas obras, o que veio antes até possuíam narrativas simples, mas, com algumas exceções, pareciam fazer apenas o mínimo para prender a atenção do público infantil, perdendo o brilho que antes era sinônimo de Disney. Mas aqui os animadores parecem realmente ter se esforçado para realizar este filme, por mais simples que ele fosse, e pela primeira vez em muito tempo nós temos uma obra que não parece ter sido feita com o apertar de um botão, e sim pela paixão e empenho de um corpo de animadores a realizarem um trabalho de qualidade, independente da premissa boba e até um pouco ridícula.

Esse empenho em transformar histórias pequenas em verdadeiros espetáculos, assim como Walt Disney fazia em sua época, viria a se tornar lugar comum nos trabalhos de John Musker e Ron Clements, e não é atoa que eles são alguns dos principais responsáveis por instaurar o período da Renascença da Disney durante os anos noventa, caracterizado justamente por resgatar a magia e a paixão do período em que Walt Disney ainda era vivo, e tudo isso começa a ser ensaiado ainda aqui, em As Peripécias do Ratinho Detetive.

O ritmo frenético da obra faz com que nós não tiremos nossos olhos da tela nem por um minuto, e ficamos o tempo todo acompanhando o desenrolar da narrativa, querendo saber o que acontecerá depois. Como eu disse, a história é redonda e perfeitamente amarrada, algo para o que a simplicidade da obra contribuiu, já que, com poucos elementos, os responsáveis pelo filme tiveram que trabalhar apenas com o que tinham em mãos para fazer com que este funcionasse, e assim, mesmo que em seu cerne O Ratinho Detetive seja uma simples historinha, tudo nessa historinha funciona primorosamente, e ela termina, como citado, como um ótimo entretenimento. A cada curva algo novo acontece, e nós ficamos ainda mais investidos querendo saber como isso tudo irá se resolver.

Além disso, as cenas de perseguição e de ação propriamente ditas também são excelentes e muito bem coreografadas, cimentando ainda mais a nossa atenção na história. Os momentos frenéticos de O Ratinho Detetive são realmente intensos, provando que, mesmo que o filme não seja uma história extremamente criativa, os animadores se esforçaram para fazer com que o filme funcionasse, refletido na maneira primorosa com que eles realizaram as sequências de ação. O principal exemplo disso é, sem dúvidas, o confronto final entre Basil e Professor Ratagão, dentro das engrenagens do Big Ben. A música climática que toca durante este momento, os ângulos da câmera, o movimento rápido dos personagens, tudo é meticulosamente encaixado de maneira que nós não consigamos tirar nossos olhos de o que está acontecendo — isso sem falar da animação propriamente dita, que, como citado, foi uma das primeiras experimentações com CGI em uma animação, e feito de forma tão bem-feita que seus visuais são impressionantes ainda nos dias de hoje.

O Ratinho Detetive também abraça todo o absurdo e o exagero de sua história, e esse é outro elemento que eu acho imprescindível para o seu sucesso como um filme. Ao invés de tentar se vender como uma história séria, em mais um contraste direto com O Caldeirão Mágico e suas pretensões em tentar ser uma obra “madura”, O Ratinho Detetive abraça todos os seus elementos ridículos, e os celebra, deixando o filme ainda mais divertido. O filme tem consciência de que ele não é nenhuma obra séria, afinal é uma história sobre ratos antropomórficos desvendando um mistério, então ele abraça todas as liberdades criativas que esta premissa simplória e boba poderia lhe dar, terminando como um filme teatral, exagerado, e que celebra o gênero da animação infantil.

A história é cheia de situações risíveis, e talvez a principal delas seja o plano do Professor Ratagão: sequestrar o pai de Olívia para que ele construa um robô idêntico da Rainha da Inglaterra, para que o vilão possa matar a rainha e substituí-la com seu robô, o utilizando para decretar Ratagão como o novo líder do país. É uma ideia completamente absurda, mas funciona dentro da história, justamente porque ela abraça seu lado ridículo e lúdico. Outros exemplos são a armadilha que Ratagão prepara para Basil, dizendo que não conseguiu escolher uma única maneira de matar seu inimigo, e ao invés escolheu todas elas, o prendendo em uma armadilha envolvendo ratoeiras, facas, revólveres e bigornas, e até a própria ideia de uma sociedade de ratos que vive paralela a dos humanos, incluindo uma rainha roedora. O filme é bobo, mas isso o engrandece, o fazendo ficar ainda mais divertido de se acompanhar.

Mas não é apenas nos diretores que encontramos os responsáveis pelo sucesso de Ratinho Detetive. Michael Eisner e Jeffrey Katzenberg também tem sua parcela de responsabilidade para tal, o que é irônico, considerando que ambos também tiveram uma parcela de culpa para o fracasso de O Caldeirão Mágico, com a conturbada troca de presidentes e detentores dos altos cargos da companhia, somada a um já confuso processo de produção podendo ser vista como a última pá de terra no caixão do filme de 1985.

Mas se assistirmos a O Ratinho Detetive perceberemos o quão acertada foi a ordem dada aos animadores para que cortassem a duração da obra para apenas setenta e quatro minutos. O resultado foi um filme extremamente amarrado e rápido, que se move como uma locomotiva e vai em um crescendo notável, com cada cena aqui avançando a história, e esse ritmo frenético é imprescindível para que nós nos sintamos compelidos pelo filme, e para que ele prenda nossa atenção, resultando em uma experiência extremamente divertida, já que o ritmo frenético e envolvente é algo que todo filme de aventura e perseguição deve ter, e O Ratinho Detetive cumpre este requisito, se fechando como um excelente entretenimento, divertido e descompromissado.

Como eu havia dito, os anos oitenta foram notórios para a animação pois foram quando surgiu uma contracultura de se fazer filmes desse tipo que eram mais pesados e notoriamente mais assustadores, indo contra a noção de que a animação era uma mídia exclusivamente infantil, reforçada pelos desenhos animados da época. O que começou na esfera independente, com filmes menores e de alcance modesto, logo alcançou a Disney, que se utilizou desse estilo mais tenso em seus filmes, como O Cão e a Raposa, O Caldeirão Mágico, e As Peripécias do Ratinho Detetive. Aqui, esses elementos surgem graças ao estilo estético da obra como um todo, que se inspira nos filmes noir policiais e de mistério, com a obra toda se passando a noite e as cores utilizadas por toda a sua duração sendo em grande maioria de tons escuros, o que já aumenta consideravelmente a tensão do espectador.

Junte isso com cenas notoriamente mais assustadoras, como quando o morcego ajudante do Professor Ratagão, apropriadamente denominado Morcegão, sequestra o pai de Olívia logo na sequência de abertura, e toda a cena que se passa na loja de brinquedos, enquanto os personagens procuram por pistas e são observados por bonecos desconcertantes, e temos um filme que pode ser considerado um pouco assustador.

No entanto, ao invés de se apoiar totalmente nesta esfera para chocar, ou, como citado, para se vender como um filme mais sério e “maduro”, a obra sabiamente sabe equilibrar esta tensão visual com bastante humor e diversão, como a já citada aptidão do filme para abraçar os seus elementos mais ridículos e saber rir de si mesmo, e toda a essência de aventura da obra, que lhe deixa leve e divertida de se acompanhar, assim compensando pelos elementos mais assustadores. O uso de alívios cômicos funciona mais neste filme do que em outros do passado porque os animadores souberam inserir humor através da interação de seus personagens, todos com personalidades bem construídas e delimitadas, que se chocam e brincam umas com as outras, o que gera cenas divertidas e bem-humoradas, ao invés de simplesmente inserir personagens na obra somente para servir de alívio cômico, o que muitas vezes descasaria com o resto da história e colocaria um peso morto que pouco faria diferença para o desenrolar da mesma.

A parte visual de As Peripécias do Ratinho Detetive é bastante satisfatória, mesmo que o design dos personagens propriamente dito não tenha me impressionado. Ainda assim, é inegável o avanço técnico da obra se comparado com os filmes feitos com a xerografia, e parece que estes dias acabaram definitivamente aqui, vendo o quão perfeitamente os animadores conseguiram passar os personagens, sem aquela essência rascunhada e falha de outrora, algo do qual nem um filme mais caro e cinemático como O Caldeirão Mágico conseguiu se livrar definitivamente, mas parece ter sumido aqui, felizmente, graças ao processo ATP, que nós já comentamos sobre no meu texto sobre O Caldeirão Mágico.

No entanto, os cenários ainda não estão perfeitamente trabalhados, e não mesclam perfeitamente bem com os personagens que se movimentam por eles, parecendo ainda planos de fundo sobre os quais os personagens foram colocados, e não parte de um universo coeso, além de eles muitas vezes serem desleixados e não muito bem desenhados. Ainda assim, eu gosto da estética desta obra, que, como eu citei, pega muitas referências dos filmes noir, e alia delas aos visuais da Era Vitoriana, que é quando a história se passa, o que resulta nas já citadas cenas escuras e nos elementos um pouco assustadores que aparecem aqui e ali.

Mas, sem sombra de dúvidas, o maior trunfo da parte técnica do filme é o uso de CGI na sequência final. Eu não tenho nem palavras para descrever o quão primorosa é essa sequência, que não só consegue ser tensa, envolvente e cinemática, mas também é perfeitamente bem-feita de um ponto de vista técnico, se considerarmos que foi uma das primeiras experimentações com CGI da história das animações, e o fez de maneira tão bem-feita que mal conseguimos notar o uso de computadores, sendo que isto foi quando o uso destas máquinas em filmes começava a surgir, há trinta e dois anos atrás — nem a própria Disney teria tanto sucesso ao utilizar de computadores em seus futuros filmes.

Minha única queixa a respeito de As Peripécias do Ratinho Detetive é em relação a maneira pobre que o filme utiliza de seu universo. A base para o mundo do filme é a ideia de que existe uma sociedade de ratos vivendo paralelamente a sociedade dos humanos, e eu gostaria de ter visto os animadores brincando um pouco mais com esse conceito, e colocando o mundo dos humanos para se chocar com o dos ratos, ou ao menos delimitar os dois universos e chamar atenção para essa conjuntura, mas ao invés ele parece se esquecer quase que completamente dessa base, com os homens raramente fazendo aparições, que dirá se chocar com os ratos, e o máximo que esse conceito é utilizado é para brincar com a perspectiva, com objetos insignificantes para nós sendo vistos como gigantescos para os roedores, ou sendo usados para outras funções que não são as que nós atribuímos a eles, como quando Dawson encontra Olívia no começo da história e ela está se escondendo da chuva dentro de uma bota, ou na já citada sequência na loja de brinquedos, que brinca com a perspectiva dos ratos perante aos bonecos que lá estão.

O único momento que me vem a mente onde o filme realmente utiliza dessa ideia das sociedades paralelas é quando Basil invade na surdina o apartamento do homem que mora em cima do protagonista, e o filme nos mostra de que este homem na realidade é Sherlock Holmes, através das sombras deste e de Watson refletidas na parede enquanto os mesmos conversam (um detalhe interessante é que esta curta sequência foi feita utilizando um trecho de diálogo do ator Basil Rathbone, que interpretou Sherlock Holmes em suas primeiras adaptações para o cinema, e de quem o protagonista, Basil, tira seu nome). É um detalhe interessante, e eu gostaria que a obra tivesse se aproveitado mais desse conceito em si, mas, tirando esse pequeno, e, sinceramente, insignificante detalhe para o resultado final, As Peripécias do Ratinho Detetive se fecha de maneira satisfatória.

As Peripécias do Ratinho Detetive pode não ter sido um estouro de bilheteria, mas considerando o fato de ninguém na Disney estar muito entusiasmado em relação ao mesmo, especialmente os chefões Michael Eisner e Jeffrey Katzenberg, foi uma enorme surpresa quando ele conseguiu arrecadar cinquenta milhões no mundo todo em cima de seu orçamento de catorze milhões, trazendo mais lucro do que seu antecessor, O Caldeirão Mágico, jamais conseguiu, e tudo isso com campanhas de marketing para o mesmo escassas.

Mesmo que a obra não tenha sido a mais aclamada da história, o dinheiro que ele trouxe de volta para a Disney foi o suficiente para que o estrago feito por O Caldeirão Mágico pudesse ser mais imediatamente reparado, e assegurando que o departamento de animação não fosse a falência. Foi também graças a esta obra que os chefes da Disney se voltaram novamente para a animação dentro do estúdio, e não a dispensaram como sendo desperdício de dinheiro. Assim, foi com este filme que o terreno começou a ser preparado para o que viria a seguir, a tão conhecida Renascença da Disney, que deve muito a As Peripécias do Ratinho Detetive, e a seus diretores, Ron Clements e John Musker, que utilizaram desta obra para trabalhar com sua mágica, antes que pudessem se utilizar dela para dominar o mundo.

Mas, mesmo com o sucesso modesto da obra, a guerra ainda não estava vencida. Mais tarde, naquele mesmo ano, uma outra animação estrelando ratos chamada Um Conto Americano, animação realizada por ninguém menos do que o antigo animador da Disney, Don Bluth, com a parceria de Steven Spielberg, estreava nos cinemas, desbancando As Peripécias do Ratinho Detetive com seu arrecadamento de oitenta e quatro milhões de dólares no mundo todo, o mais bem-sucedido filme animado não vindo da Disney até aquele momento na história. Assim, a mensagem estava enviada para a casa do Mickey de que, mesmo que ela estivessem começado a se reerguer, muita coisa mudou enquanto ela estava fora, e um caminho muito longo teria que ser percorrido se ela quisesse dominar o mundo das animações novamente. E foi exatamente isso que a Disney fez.

As Peripécias do Ratinho Detetive tem de tudo; mistério, ação, terror, drama, comédia… eu acredito ser impossível assistir a essa obra e não gostar de ao menos um aspecto da mesma. Eu me lembro de ter falado no meu texto sobre 101 Dálmatas que há muitos motivos para se gostar de um filme; alguns deles nos fazem refletir, outros são historicamente importantes, e ainda há outros que são pura e simplesmente divertidos. Este era o caso com o filme dos cachorros, e este é o caso com este aqui; um filme envolvente e divertido, que com certeza conseguirá trazer um sorriso ao rosto de quem quer que o assista.

Em 1928, um rato trouxe Walt Disney ao estrelato. Em 1986, cinquenta e oito anos depois, foi a vez de outro rato, Basil da Rua Baker, de salvar o seu legado.

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