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As Eras da Disney | A Era da Renascença (1989-1999)

E então voltamos. Depois de meses sem falar das Eras da Disney (precisava de um tempo para estudar esse periodo da história deles), voltei para mais dez anos de retratação, e agora falando da Era da Renascença, que marca então a volta da Disney aos holofotes, depois de 20 anos de trevas.

A animação da Disney revolucionou o cinema nas décadas de trinta e quarenta, e continuou relevante pelos anos cinquenta e sessenta, lançando diversos sucessos que fundamentaram sua filmografia como detentores de uma magia e de um encanto que nos transportavam para um mundo fantástico e dócil, que visavam agradar as crianças, mas devido à sua sensibilidade e qualidade técnica, encantavam pessoas de todas as idades e se tornavam obras atemporais. A magia e o universo lúdico dos contos de fadas viraram a marca registrada da Disney durante os anos cinquenta e sessenta. No entanto, devido à uma série de fatores, como a morte de Walt Disney, um mal gerenciamento da companhia, uma concorrência que antes não existia ganhando corpo e uma queda de interesse do público em animações no geral, os filmes da Disney foram perdendo popularidade e caindo no esquecimento durante as décadas de setenta e oitenta.

Mas talvez o principal motivo dessa queda da popularidade tenha sido a queda da qualidade. Com a morte de Walt Disney o estúdio ficou menos confiante e uma incerteza foi gerada em meio aos animadores, que não sabiam para onde iriam dali em diante. Junte isso à técnica da xerografia, que foi utilizada nas animações deste período por serem mais custo-efetivas, mesmo que comprometessem a qualidade técnica, e o resultado foram filmes preguiçosos e pouco ousados, que não saíam de suas zonas de conforto. Histórias básicas, que não tinham o elemento fantástico e encantador de qual a Disney tanto se gabava e vendia como sua marca registrada, terminando como obras simples e esquecíveis que não causavam mais impacto no público.

Em meados dos anos oitenta o impacto negativo do departamento animado da Disney foi sentido de forma avassaladora com o fracasso vergonhoso de O Caldeirão Mágico. Estava claro que a Disney, enquanto estúdio e companhia, estava cada vez mais desesperançosa e desapegada com seu departamento de animação, que era nada menos do que a base de sua fundação, mas que agora só lhe trazia prejuízos, e considerava fechar de vez o departamento. Dando mais uma chance, a Disney exilou seus animadores, os tirando do conglomerado de estúdios onde ela produz seus filmes, em Burbank, e as enviando para outra cidade, à três quilômetros de distância, onde eles teriam que trabalhar em depósitos, galpões e trailers, para se provar como valiosos e recuperar a qualidade das animações. Para isso, eles precisavam de um sucesso, um sucesso estrondoso, típico dos clássicos das eras de Ouro e de Prata, e, felizmente, eles conseguiram.

Em 1989, A Pequena Sereia estreava nos cinemas, iniciando uma série de sucessos de bilheteria e de crítica que se estenderia por dez anos. Sem nunca olhar para trás a Disney dominou os anos noventa, comercial e culturalmente, ascendendo à um sucesso nunca visto antes, superando a Era de Ouro, e impactando e remodelando toda uma geração. Este período da história da Disney, que vai de 1989 a 1999, se chama Renascença, e com boas razões. Como uma fênix, a Disney renasceu das cinzas, e voltou para o topo, espaço que não ocupava há vinte anos, se fazendo relevante novamente, e forçando todos os holofotes à mirarem para ela. A Renascença é o período da filmografia da Disney mais popularmente conhecido e acordado entre os historiadores e fãs.

A Renascença é relevante pelo seu impacto. Ela não apenas trouxe a Disney de volta, ela trouxe a animação de volta. A animação, durante as décadas de sessenta, setenta e oitenta decaiu muito na visão do público. Graças à televisão, os desenhos animados cresceram em popularidade, e durante este período a única maneira de se encontrar animações — tirando os filmes da Disney, que eram lançados em períodos espaçados de tempo e não eram tão populares — era através da televisão. Só que, diferente dos projetos dos anos vinte, trinta e quarenta, quando os animadores como Walt Disney, Ub Iwerks e Tex Avery realmente viam seus curtas animados como obras de arte, e se maravilhavam desenvolvendo-os e vendo até onde poderiam elevar sua técnica, os desenhos que duravam vinte minutos eram vistos apenas como entretenimento barato para atrair a atenção das crianças e uma forma fácil das emissoras de conseguirem audiências.

Eles não precisavam se esforçar, afinal, “crianças são burras e vão assistir qualquer coisa”. As coisas pioraram nos anos oitenta, quando Reagan permitiu que marcas capitalizassem em cima desses desenhos e vendessem brinquedos e merchandisings com esses personagens estampados em suas embalagens, coisa que, até então, era proibida. Enquanto a Disney desmoronava criativa e corporativamente, os desenhos animados foram ficando cada vez mais vazios de conteúdo, e usados apenas como um comercial de brinquedos.

A animação realmente atingiu o fundo do poço neste período, então quando A Pequena Sereia retornou, trazendo consigo aquela essência fantasiosa da Era de Ouro, ela não só nos remeteu à Era de Ouro da Disney, mas sim à Era de Ouro da animação, nos relembrando a capacidade que esses desenhos animados tinham de nos emocionar e de nos encantar, quando tentavam ser algo mais do que uma jogada de marketing de vinte minutos. Isto já havia se fundamentado um ano antes, com um filme chamado Uma Cilada para Roger Rabbit, que resgatou personagens da Era de Ouro e entregou um filme que misturava live-action com animação, e personagens tanto da Warner quanto da Disney, para ressuscitar no público aquele sentimento de maravilha e encantamento que ele sentia quando via esses desenhos antigos e lembrar a capacidade dessa técnica de contar boas histórias e encantar o espectador.

Apesar de utilizar personagens da Disney, o filme foi totalmente produzido por Steven Spielberg, com a benção da casa do Mickey, que não podia se envolver no projeto devido ao estado calamitoso em que se encontrava. Ainda assim, Roger Rabbit (que ganhou um Oscar honorário em 1989) cimentou no público este encantamento com as animações novamente, A Pequena Sereia fez isso germinar um ano depois e a Disney usou disso para dominar os anos noventa e se colocar de volta no mapa.

Para o sucesso de A Pequena Sereia, a Disney de fato retornou para seus princípios. Walt Disney considerava fazer um filme baseado no conto de Hans Christian Andersen desde os anos trinta, e os animadores retornaram para as raízes do estúdio e resgataram a ideia, dispostos a reviver aquele primeiro período onde a Disney desfrutava de toda a glória e aclamação, e relembrar o público daqueles filmes, atemporais e amados por todos, fazendo com que A Pequena Sereia seguisse seus passos e se tornasse o sucesso que a Disney tanto precisava. Assim, o filme pegou tudo aquilo que fez da Disney ser quem é, toda a doçura, a essência infantil dos contos de fada, a sensibilidade e a inocência e cresceu em cima disso, e a Disney se assumiu como um estúdio que possui uma fórmula e um estilo de filmes único.

Claro que ela já tentou sair disso algumas vezes, mas quase sempre resultaram em um fracasso, como O Caldeirão Mágico, que a Disney, neste período, estava tentando esquecer e empurrar para debaixo do tapete, e voltar para as glórias do público. A maneira com que ela encontrou para tal foi voltar para a Era de Ouro e tudo o que deu certo naquele momento, e aumentar ainda mais esses trejeitos, se vendendo como o estúdio dos contos de fadas. A Pequena Sereia foi o primeiro filme da Disney à se basear em um conto de fadas em trinta anos, quando o fracasso de A Bela Adormecida fez a Disney se voltar contra aquele modelo padrão e tentar trabalhos mais fáceis e menos grandiosos, que levaram, inevitavelmente, para seu acomodamento, que fez com que ela se perdesse nos olhos do público e se afundasse. Agora, ironicamente, era este modelo que a Disney tanto renegou que estaria a salvando.

Mas isso não quer dizer, no entanto, que a Renascença é igual à Era de Ouro. Ambos os períodos têm diferenças gritantes um do outro, e isso muito tem a ver com o período em que eles se deram. Quando Walt Disney lançou Branca de Neve e os Sete Anões em 1937, a animação era algo novo, e, portanto, ninguém sabia ao certo todas as suas capacidades, todas as suas limitações, e até onde esse modelo de se fazer cinema poderia ir. Coube à Walt, e à uma série de outros animadores como os já citados Ub Iwerks e Tex Avery, tomarem o fardo de descobrir as respostas para essas questões para si, e se desbravar pelos territórios desconhecidos dos filmes animados.

O início da animação era bem básico, como era de se esperar. Os filmes feitos por essa técnica começaram a pipocar pelo início do século XX, e eram silenciosos e sem cor, feitos com traços bastante básicos, além de todos serem pequenos curtas com a intenção de apenas serem cômicos. Walt Disney, em específico, foi uma figura muito importante para revolucionar o meio, e eu acho isso importante de se ser delineado. Quando alguém ganha uma grande proeminência em um certo meio, muitas polêmicas começam a surgir anos depois, como uma forma de contestar e questionar se seus feitos foram realmente importantes, ou se essa pessoa foi só alguém que deu sorte ou que soube se vender como tal. Porém Walt Disney, com todas as críticas que mereçam ser feitas à sua pessoa e à sua companhia, de fato foi uma figura importante, nem que seja só por conseguir catapultar a animação para a popularidade. Mas ele também é mais que isso.

Quando Disney fez Steamboat Willie, em 1928, ele fundamentou o uso de som em animações. Quando ele fez Flores e Árvores, em 1932, ele fundamentou o uso de cores. E quando ele fez Branca de Neve e os Sete Anões, em 1937, ele simplesmente mudou a história da animação para todo sempre, revolucionando o padrão em que esses filmes se encontravam, e mudando a forma como o imaginário popular os via. Agora, uma coisa interessante, é que, ao contrário do que muitos pensam, Walt não foi o primeiro a se utilizar dessas técnicas. Steamboat Willie não foi a primeira animação com som, Flores e Árvores não foi a primeira com cores, e nem Branca de Neve foi o primeiro longa-metragem animado. Mas só porque suas obras não são pioneiras, não significa que elas não têm seu valor. Walt foi responsável por aperfeiçoar cada uma dessas técnicas e catapultá-las para a proeminência.

Há um motivo para essas obras serem consideradas as primeiras de suas respectivas técnicas, e é por causa de suas qualidades. Walt Disney pegou algo que já havia sido trabalhado por outros, e aperfeiçoou a ponto de elas serem recebidas pelo grande público, algo que as obras que vieram antes não foram capazes de fazer. E apesar de ser chato que elas ganhem mais crédito do que merecem, essas obras foram transcendentais e foram importantíssimas para mudar não só o meio das animações, mas também o cinema como um todo.

Mas o que eu quero dizer com essa introdução, é que Walt, pelo mercado de animação ser algo muito incerto e pouco cimentado, não via seus filmes como produtos, ele os via como obras de arte, onde ele pudesse experimentar e fazer o que quisesse neles, independente da forma com que eles seriam recebidos. Walt era um artista, e seus primeiros filmes eram puramente experimentais. Assim, se formos pegar os filmes da Era de Ouro, principalmente, mas também os da Era de Prata, em certa capacidade, veremos que eles são absurdamente diferentes das animações dos dias de hoje. Esses filmes são como uma plataforma onde Walt Disney podia expressar sua arte, onde ele podia experimentar com o uso de cores, som, técnicas de desenho, entre outros. Assim, o foco desses filmes não é tanto na narrativa, ou em seus personagens, e sim na arte. Esses filmes valorizam sua estética acima de tudo, eles eram usados para ultrapassar os limites da animação, e atingir outros patamares com sua plataforma.

Isso não significa que a história e os personagens não importavam, se esse fosse o caso e a história que tivesse sendo nos passada fosse fraca, essas obras teriam perdido seu apelo e não se manteriam até hoje. Não, o que eu estou querendo dizer é que a prioridade, nessas primeiras obras, estava na parte artística e estilística, portanto, não há um roteiro ou um arco de personagem tão definido aqui. Sendo assim, muitas vezes sequências inteiras desses filmes não estavam lá para avançar a história, e sim para não só nos mostrar o poderio da arte, mas também para ajudar a passar a atmosfera e a essência desses filmes, pois isso era mais importante que a própria história.

Cenas onde nada de relevante acontece, mas são divertidas e animadas, ajudando a nos dar um senso maior do universo que estamos vendo, são bastante comuns aqui. Assim, os filmes iniciais da Disney eram mais experimentais e artísticos, e não possuíam uma fórmula propriamente dita, à não ser a fórmula temática de filmes infantis e alegres, mas isso é uma leitura mais contemporânea da Disney, e muitos de seus primeiros filmes podiam variar violentamente dessa bolha. Mas, como citado, o fato de a animação ser algo extremamente novo, não possuindo um mercado definido, um senso de o que esses filmes deveriam ser e fazer, e nem uma concorrência mais corpórea para a Disney — no que tange animações em longa — fez com que essa experimentação pudesse ser possível.

No entanto, o mercado animado evoluiu muito dos anos quarenta para os noventa. Cinco décadas haviam se passado, e já havia um mercado um pouco mais definido, sobretudo com a popularidade de Don Bluth e seu estúdio na década de oitenta, que foi a primeira vez que a Disney enfrentou alguma concorrência. Sendo assim, os filmes animados estavam menos experimentais, e mais formulaicos, e nós podemos perceber isso ao assistir as obras da Renascença. Essas obras tem uma narrativa bastante direta, e um foco em seus personagens. Tudo o que vemos está ali para avançar a narrativa, e seguir com a jornada de seus personagens, e isto começou a ficar proeminente justamente com A Pequena Sereia, que iniciou uma fórmula narrativa que se estenderia por todo o período, apesar de não ter sido o primeiro filme do estúdio onde percebemos uma preferência narrativa em preterimento à atmosfera e à arte.

Não só o filme pega o modelo dos contos de fadas e os adapta para a animação, como os filmes da Era de Ouro e da Era de Prata, ele começa a lapidar fórmulas e características que, por mais que já existissem anteriormente, não ficaram tão atreladas à Disney como ficariam com a Renascença, principalmente a música, mas não apenas, afinal é aqui onde a Disney começa a ser vista pura e simplesmente como “o estúdio dos contos de fadas”, mesmo que a sua faceta lúdica já se fizesse presente antes. No entanto, todos esses filmes em uma capacidade ou outra eram adaptações de histórias pré-existentes e todos seguiam a dita mesma fórmula, que ficou conhecida como “a fórmula da Disney”, que virou sinônimo para, justamente, contos de fadas.

Temos a heroína que está insatisfeita com o lugar onde vive e quer mais da vida, o ajudante da protagonista, muitas vezes um animal antropomórfico fofo e adorável que oferece alívio cômico, feito com o merchandising em mente, o par romântico e o vilão sempre aterrador e malvado, além de números musicais espalhados pelo filme e cumprindo uma função. Mas tudo isso nós poderíamos encontrar, mesmo que em menor escala, nas obras da Era de Ouro, então qual, de fato, é a diferença entre os dois períodos? Explico.

Enquanto os filmes das eras de Ouro e de Prata eram muito simples e básicos; seguíamos uma princesa como protagonista, um vilão a odiava e queria sabotar sua vida, ela conhece um príncipe, os dois se apaixonam, derrotam o vilão e vivem felizes para sempre, fim. As histórias da Renascença, apesar de seguirem essa base, evoluem a narrativa, e fazem dela mais complexa. Como citado, as histórias da pré-Renascença eram mais simples, narrativamente falando, pois o foco não estava nos acontecimentos, e sim na atmosfera e nas sensações que o filme nos passava. Esses filmes queriam mais nos encantar com sua arte e seu senso de alegria e positividade, queriam mais nos fazer sentir, do que contar uma história.

Já a Renascença, quando resgatou essa essência fantástica dos contos de fadas que eram a marca registrada da Disney, trazendo de volta a princesa, a batalha do bem contra o mal, o vilão e o amor que salva a pátria e instaura o final feliz, fez dela mais rebuscada, querendo que a história fosse o foco, e não a animação, lembrando que muito tempo havia se passado, e a animação não era mais uma novidade, tendo se estagnado, ao contrário do que na época de Walt Disney, onde era um meio novo, cheio de possibilidades. Agora, nos anos noventa, em que a Disney precisava voltar urgentemente para o topo, estando muito mal das pernas, eles não podiam inovar tanto assim, e foram com o que eles já conheciam, os contos de fadas, mas evoluíram seus roteiros e suas narrativas para que elas se tornassem mais atrativas. Com os visuais da animação não sendo mais novidade para o público da época, a Disney precisava apostar sua ficha em outro campo, a narrativa.

Ainda assim, acho curioso como toda vez que a Disney precisava se reinventar ou se reerguer, ela sempre volta para o conto de fadas, talvez por saber como esse modelo é tão querido pelo público. Os contos de fadas são histórias bastante simples, onde podemos facilmente manipular a história, e adicionar elementos para engrandecê-las, além de serem muito conhecidas pelo público, e, sendo assim, histórias familiares são mais fáceis de atingir a veia emocional do espectador, e fazê-lo sentir pelos personagens.

Foi com um conto de fadas que a Disney se estabeleceu no campo dos longas animados em 1937. Quando ela precisava se reerguer após a Segunda Guerra Mundial, ela apostou novamente nos contos de fadas, com Cinderela. E agora, quando precisa se reerguer novamente, ela volta aos contos de fadas. No futuro, em outro momento onde precisa fazer um retorno após mais um período na amargura, ela volta aos contos de fadas, dessa vez, com A Princesa e o Sapo. Mas de qualquer forma, nos anos noventa, algo à mais foi adicionado a essa tão simples e básica narrativa; o senso de identidade. Isso fez com que o conflito principal dessas histórias fosse interno, ao invés de externo.

Os primeiros protagonistas da Disney eram muito passivos, no sentido de que tudo parecia acontecer ao redor deles, e eles só ficavam sentados enquanto a história se desenrolava. Eles não tinham nenhuma função ali, nenhum arco narrativo, mas isso mudou na Renascença. Os protagonistas da Renascença querem descobrir quem são, um lugar onde podem pertencer, onde se sentem contemplados. No começo de todos os filmes somos introduzidos a estes personagens e ao lugar onde vivem, onde são infelizes, e sonham em sair dali e descobrir seu verdadeiro propósito no mundo.

Claro que o elemento romântico, remanescente da Disney dos anos cinquenta, ainda se fazia presente, mas ao invés de a história se girar em torno desse elemento, e da história de amor entre os protagonistas, a parte romântica vinha de forma acidental, enquanto o protagonista está em sua jornada de autodescoberta, que é, de fato, o principal arco narrativo destas obras. Assim, se cria um conflito, que faz desses personagens figuras mais interessantes e complexas, e não personagens apáticos.

O foco da Renascença virou os seus personagens, e são eles que fazem essas histórias tão interessantes e atraentes. Nós vemos seus dramas, nós compreendemos quem essas pessoas são de fato, e isso faz com que nós torçamos para elas, que elas cumpram seu arco narrativo, e cheguem ao tão esperado final feliz. E, com o foco narrativo sendo o arco de seus personagens, a narrativa ganha um objetivo: que essas figuras cumpram seu objetivo e cheguem aonde querem chegar no final do filme, e isso faz com que seus filmes sigam uma narrativa corpórea, ao contrário dos filmes anteriores onde, como citado, não possuíam tanto uma narrativa, e sim uma série de momentos que estavam lá mais para nos passar a atmosfera e a essência desses filmes do que para servir uma função. Agora, tudo o que acontece tem uma função dentro da história, e está ali para incorporar na e avançar a mesma.

Outra gritante diferença da Renascença para os períodos que a antecederam é como esses filmes valorizam muito mais suas músicas, e a incorporam em sua história. Não que os filmes anteriores não tivessem música, aliás a extrema maioria dos filmes da Disney de qualquer período incorporam a mesma — uma das coisas que mais fascinava Walt Disney era casar a animação com a música e ver sua história se desenrolar ao som da mesma. Mas as músicas dessas primeiras obras eram, assim como os próprios filmes em que configuravam, mais atmosféricas e não possuíam um papel narrativo tão grande. Elas estavam lá para ser alegres e cativantes, e ajudavam a passar a essência dos filmes, mais do que faziam participações corpóreas aos mesmos.

Na Renascença isso muda, e A Pequena Sereia é o primeiro filme que adota uma fórmula musical propriamente dita, que se assemelha da Broadway, mais do que as músicas descontraídas e inconsequentes dos primeiros filmes. Agora, a música cantada pelos personagens está totalmente entrelaçada na história, e ajuda a encaminhá-la para a frente. Essas músicas ajudam a nos informar o que está acontecendo, como esse universo se dá, assim como ajuda a expor os sentimentos dos personagens. Assim como os musicais da Broadway, os personagens cantam como uma maneira de exportar seus sentimentos para o espectador, e assim, a música vira uma parte vital do filme, possuindo um papel narrativo de extrema importância.

Temos o número de abertura, a balada da protagonista onde ela exporta seus sentimentos para a plateia, a canção divertida e bem-humorada do alívio cômico e a música do vilão. A imensa maioria dessas músicas eram compostas por Howard Ashman, o letrista, e Alan Menken, o musicista, ambos vindo da Broadway. Foi Ashman o principal responsável por remodelar o filme d’A Pequena Sereia para que seguisse uma estrutura narrativa dos musicais da Broadway, algo que deu tão certo que seria aplicado em todos os filmes subsequentes dos próximos dez anos, e as músicas se tornaram alguns dos principais atrativos destes filmes e viraram sinônimo de Disney. Quantas vezes você se pega cantarolando músicas como Aqui no MarUm Mundo IdealÀ Vontade ou O Ciclo Sem Fim? Provavelmente elas vieram à sua cabeça enquanto você lia seus nomes, e estas introduções musicais foram uma das mais sábias jogadas da Disney durante a Renascença, se tornando marcas da cultura pop e tão duradouras e icônicas quanto as obras de onde saíram, ajudando a cimentar a popularidade e a durabilidade destas obras.

A trilha sonora na Renascença também chamou a atenção da Academia, e a imensa maioria dessas obras tiveram alguma música indicada a melhor canção, com muitas delas levando a estatueta para casa, fazendo com que o sucesso da Disney neste período não fosse só comercial ou com o público, mas também um sucesso crítico que há tempos ela não via. E assim, esses filmes foram responsáveis não apenas pelo retorno das animações nos cinemas, mas também para o retorno dos filmes musicais, que, assim como os filmes animados, tinham decaído em popularidade e se encontravam no ostracismo fazia tempo.

Estes filmes todos seguem, também, em uma capacidade ou outra, a jornada do herói, enquanto vemos nossos protagonistas que não sentem pertencer ao lugar onde começam a história e querem algo mais da vida, saindo do lugar onde estão no começo da história, embarcando em uma aventura, tendo que superar obstáculos e atingir seus objetivos. São todas batalhas do bem contra o mal, bastante maniqueístas e com o espaçamento entre o lado do bem e o lado do mal extremamente delimitado, sempre com a música os permeando, e a presença do indispensável alívio cômico, que muitas vezes eram animais fofos e dóceis, como Linguado ou Abu, que ajudavam a tirar o foco narrativo do protagonista, que eram figuras mais dramáticas, e, como o nome dado à eles dá a entender, aliviar a tensão através da comédia. Logo, no entanto, esses filmes, por mais populares que fossem, estavam se tornando muito formulaicos, e isto, inevitavelmente, levaria a Disney a tropeçar em seus próprios pés e derrubar seu próprio castelo de cartas, mas tudo a seu tempo

Além da fórmula narrativa, se nota nos filmes d’A Renascença como a escala deles é enorme e monstruosa. Os animadores não estavam mais em sua zona de conforto, fazendo filmes básicos e seguros, eles estavam entregando tudo de si nestes filmes, que tinham cenários grandiosos e coloridos, que causam a sensação no público de que eles estão sendo engolidos e transportados para aquele mundo mágico e cheio de possibilidades da Disney.

A animação, pela primeira vez em muito tempo, trazia aquele primor técnico que o estúdio dominava tão bem em suas primeiras décadas, tendo que se comprometer porque os projetos estavam muito caros, e entregar animações mais baratas com o uso da xerografia nos anos seguintes. Agora, na Renascença, a Disney estava apostando todas as suas fichas novamente, querendo que seus filmes fossem grandes sucessos e, compreendendo que para isso ser possível o público tinha que se sentir compelido por estas obras, ou seja, elas tinham que ser obras de qualidade.

Assim, o estúdio não estava mais hesitando em dar tudo de si e entrar com todos os recursos para que seus filmes fossem da melhor qualidade possível, tanto técnica quanto criativamente. Apesar de a xerografia ser usada em A Pequena Sereia, com a tecnologia mais avançada este foi o melhor uso da técnica pela Disney, e agora aquela sensação de que estávamos vendo filmes rascunhados e na fase de pós-produção havia passado, e a animação estava tão polida e primorosa quanto os filmes antes da xerografia.

Com o sucesso de A Pequena Sereia a fé no departamento animado foi restaurada, e, não querendo perder a oportunidade que o grande sucesso deste filme criou, a Disney queria dar tudo de si para se aproveitar deste sucesso momentâneo e criar em cima dele um grande retorno, entregando mais sucessos, e não deixando que o filme da Ariel fosse um sucesso ao acaso, e, assim, o departamento de animação recebeu todos os recursos necessários para que esta meta fosse cumprida, voltando para a animação tradicional, não importando o quão caro fosse.

Além disso, a Disney começou a experimentar pela primeira vez com computadores, no período pós-Pequena Sereia, com o programa CAPS, criado pela PIXAR. Assim, a Disney estava abraçando aquela sensação cinematográfica por qual Walt tanto prezava. Era importante para ele que seus filmes não fossem vistos só como “desenhos” e sim como filmes, e assim, ele aperfeiçoava a sua técnica à cada filme para que eles ficassem cada vez melhores e mais polidos. Esse senso se perdeu quando a xerografia foi adotada, mas a Renascença o resgatou com força total.

Com A Pequena Sereia, a Disney entrou em um processo frenético de produzir filme atrás de filme. Enquanto antes havia um espaçamento de quatro anos entre suas obras, nos anos noventa o estúdio lançou um filme animado por ano, praticamente, todos muito bem elaborados e de tirar o fôlego, seja pela parte criativa ou pela parte técnica. A Disney não deixava a peteca cair, e entregava sucesso atrás de sucesso. Todos os seus filmes ressoavam cada vez mais com o público e com a crítica. O único filme que falhou neste período foi Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus, uma sequência para o filme de 1977, que muitos esquecem pertencer a essa época, devido ao impacto mínimo que o filme fez, tendo estreado na mesma semana de Esqueceram de Mim e eclipsado por ele, além de ser o filme que mais foge da fórmula que a Renascença havia estabelecido. Tirando este pequeno e imperceptível percalço, no entanto, a Disney estava frenética nos anos noventa, e só conseguia subir mais e mais.

A Bela e a Fera, de 1991, foi um estouro ainda maior que A Pequena Sereia, continuando com os visuais belíssimos e muito polidos, e a essência dos musicais da Broadway casada com um conto de fadas, desta vez, um conto homônimo tradicionalmente francês. O vilão terrível, os dóceis coadjuvantes feitos para virarem merchandising mais tarde, os personagens que servem alívio cômico, e a heroína insatisfeita com a vida que quer algo mais e, inevitavelmente, se apaixona no decorrer da história, além dos exagerados e teatrais números musicais, todos estão aqui.

Os elementos presentes para realizar a dita fórmula Disney estão todos presentes, mas elevados à máxima potência, fazendo de A Bela e a Fera um clássico filme da Disney. Ele é um mostruário de tudo que o estúdio faz, feito de maneira primorosa e encantadora. Ele é tudo que um filme da Disney deve ser, um filme doce e sensível que dialoga com nossas emoções e nos conforta e nos alegra em seus noventa minutos de duração. Isto ressoou bastante com os críticos, o que fez de A Bela e a Fera o primeiro filme animado a concorrer ao Oscar de melhor filme.

Isto era na época onde a categoria se limitava a eleger apenas cinco filmes, ou seja, A Bela e a Fera teve que realmente se provar para conseguir tamanho reconhecimento, que foi a cereja no bolo para cimentar o retorno da Disney, tanto crítica quanto financeiramente. Estava claro que a Disney tinha ultrapassado qualquer limite e crescido muito mais do que qualquer pessoa poderia prever. Porém, A Bela e a Fera acabou sendo um peso muito grande para o estúdio, por outro lado, devido ao seu estrondoso sucesso, e todos os outros filmes realizados após ele tiveram seu peso em suas costas. Aos animadores foi aderido a responsabilidade de superar A Bela e a Fera, de entregar um novo e melhorado A Bela e a Fera, que fosse abocanhar óscares à torto e à direito. Obviamente isso se tornou um fardo muito pesado e as coisas acabaram se desmoronando a partir daí.

Mas elas continuaram indo bem por um tempo. Após A Bela e a Fera, Aladdin foi lançado em 1992, mais um filme icônico que hoje pode, sem sombras de dúvida, ser considerado um clássico. O filme entra de cabeça na fórmula da Renascença, com o vilão, o alívio cômico, o ajudante fofo e os números musicais, mas ele aborda um tom muito mais leve e bem-humorado do que os filmes que o antecederam. Em Aladdin, podemos perceber o surgimento de um estilo de animação que ficaria muito popular uma década depois com as animações, animações de comédia que utilizam um humor irreverente e autoconsciente, quase que como uma autoparódia, que aborda em si muitos elementos da cultura pop para fazer graça.

Apesar de Aladdin ainda possuir a essência lúdica e fantasiosa dos outros filmes, ele aborda em si, também, um ar jocoso, que está o tempo todo fazendo graça de si mesmo e meio que piscando para o público. Tudo isso é reforçado pelo personagem do gênio que, em inglês, foi dublado por Robin Williams, em mais uma característica que se tornaria muito popular nas animações nos anos por vir — a voz de algum ator famoso sendo empregada a um personagem. Aladdin não foi o primeiro a utilizar desta técnica, mas foi o filme responsável por cimentá-la e expandi-la, até que ela virasse lugar comum entre os filmes animados. Ainda assim, Aladdin se mantém suficientemente fiel à fórmula Disney, brincando e se parodiando na medida certa, e sabendo quando acalmar essa essência jocosa e se levar à sério, abraçando a fórmula doce e sensível da Disney. Foi um estrondoso sucesso crítico e comercial, mais uma vez recebendo óscares de melhor música e melhor trilha sonora.

Mas talvez o maior e mais estrondoso sucesso da Renascença tenha vindo em 1994. De volta à sua produção, O Rei Leão não parecia ser uma boa ideia. O filme estava sendo produzido no mesmo período de Pocahontas, que estava sendo todo trabalhado para recapturar a magia de A Bela e a Fera e ser nomeado a um Oscar. Enquanto Pocahontas era o novo A Bela e a Fera, um filme extremamente artístico e polido, O Rei Leão parecia ser um filme B e menor, sobre animais antropomórficos, que por algum motivo tinha recebido sinal verde para ser produzido. Ninguém queria trabalhar em O Rei Leão, e diversos animadores atribuídos a trabalhar neste filme tentaram pular o barco e ir para Pocahontas.

Só que, esta falta de crença e uma menor supervisão deu ao filme maior liberdade, e fez com que ele trouxesse o frescor que a Disney tanto precisava, a medida que a fórmula repetitiva da Renascença estava à um passo de se tornar cansativa. Rei Leão é o filme que mais abre mão da fórmula que a Disney seguia. Ao invés de Howard Ashman e Alan Menken temos Elton John e Tim Rice na composição. Ao invés de seguir um conto de fadas, o filme é uma adaptação de Hamlet, de Shakespeare, com algumas influências bíblicas como a história de Moisés. O Rei Leão era um filme menor, um filme que ninguém levava a sério, e por isso, ele se deu diversas liberdades criativas e terminou como um dos filmes mais únicos e épicos dessa era.

O filme B e menor virou um estrondoso sucesso e um dos principais filmes que vêm à mente quando pensamos em Disney, e em desenhos animados em geral. O Rei Leão virou sinônimo de animação de qualidade, e foi o detentor, por dezesseis anos, do título de animação com a maior bilheteria de todos os tempos, e ainda é o filme de animação tradicional ocupando a posição. O Rei Leão se tornou, quiçá, mais impactante do que A Bela e a Fera, porque provou a capacidade da arte de se enriquecer e de se engrandecer quando os artistas têm total liberdade sobre o que estão fazendo. Diferentemente de A Bela e a Fera, que tinha todos os holofotes em cima dele para que saísse uma obra de arte, O Rei Leão era tido como um filme menor para ser lançado entre os projetos maiores e realmente importantes. E se tornou um dos maiores filmes, em escala, de todos os tempos, com muitas das cenas, personagens, e músicas mais icônicas da casa do Mickey.

O Rei Leão marcou diversas outras mudanças para a companhia. Após a saída de Ron Miller, Roy E. Disney chamou Michael Eisner, da Paramount Pictures, e Frank Wells, da Warner Bros., para trazer a Disney de volta para o caminho certo. Michael Eisner decide chamar Jeffrey Katzenberg, que conheceu enquanto trabalhava na Paramount, para gerenciar o departamento cinematográfico da Disney, e, até aí, tudo bem. Tudo parecia estar dando certo, em um primeiro momento, e a Disney se reergue criativamente de maneira absurda, dando início à Renascença.

Mas os bastidores deste período não eram tão mágicos assim, com Jeffrey Katzenberg, que, segundo dizem, possuía um enorme ego, sendo atrelado como o principal responsável por reerguer a Disney, o que incomodou algumas pessoas, sobretudo Roy E. Disney, sobrinho de Walt Disney, que foi o principal responsável por tirar Ron Miller de sua posição como presidente da companhia e trazer Eisner, Wells e Katzenberg. Após estas mudanças administrativas, Roy foi apontado como o gerente do departamento de animação, e ficou extremamente incomodado com a maneira que Katzenberg parecia estar tomando crédito pelo sucesso da Disney nos anos noventa todo para si. Katzenberg tentou tomar a posição de Frank Wells e se tornar o segundo em comando, abaixo de Michael Eisner, mas Eisner disse à Jeffrey que Wells se sentiria muito machucado caso fosse demovido para dar espaço à Katzenberg, mas garantiu-o que ele seria a primeira opção caso Wells saísse do cargo.

Eisner, aparentemente, não é uma pessoa muito honesta porque, quando Wells morreu em um acidente de helicóptero, em 1994, ele próprio assumiu a posição de Frank, deixando Katzenberg a ver navios. Segundo o próprio Eisner, isto se deu pois Roy E. Disney não escondia seu desgosto para com Katzenberg e disse para Eisner que se ele assumisse a posição de Wells ele iria “começar uma luta coorporativa”. A batalha entre os egos de Eisner, Katzenberg e Roy já estava se alastrando muito antes da morte de Frank Wells.

Enquanto Katzenberg tentava ganhar todos os créditos da Renascença que ele conseguisse pôr as mãos, se vendendo como o “salvador da Disney” para a mídia, Eisner se vendia para a mesma como o novo Walt Disney, o rosto do estúdio, e Roy ficava no meio dos dois tentando se provar como uma parte importante da empresa e manter o legado de seu tio e de seu pai vivos, sem interferências. Wells era a pessoa responsável por manter os grandes egos tanto de Eisner, quanto de Katzenberg e de Roy em cheque, ele era o mediador daquelas grandes e expansivas personalidades, que sempre atraíam os holofotes para si, e sem ele ali, as coisas logo começaram a desmoronar e lutas internas se tornaram cada vez mais frequentes.

Não se sabe ao certo se Katzenberg se demitiu ou foi demitido, mas o fato é que em outubro de 94 ele saiu da Disney, com rancor o suficiente no coração para lançar um estúdio próprio anos depois, a DreamWorks, com Steven Spielberg e David Geffen, que se estabeleceu como uma das principais concorrências da Disney durante os anos 2000, com muitos de seus filmes, como Shrek, sendo direcionados à simplesmente parodiar e fazer pouco do estilo de contos de fadas da Disney, que, ironicamente, Katzenberg ajudou a estabelecer durante a Renascença.

E assim termina a primeira fase da Renascença, discutivelmente o melhor período tanto criativa quanto financeiramente da Disney. Depois disso, o período continua, porém, sua segunda fase, que dura toda a segunda metade da década de noventa, não é capaz de manter o encantamento do público e a magia dos filmes, que começaram a se tornar muito repetitivos e cansativos, além de novas concorrências começarem a surgir no final da década, o que foi deixando a Disney obsoleta, situação que iria atingir seu ápice na década de 2000.

Ainda assim, a Renascença como um todo é importantíssima não só para a Disney, como para o quadro geral das animações. Foi esse período que deixou os filmes animados relevantes novamente depois de anos amargurando o esquecimento. Se não fosse a Renascença, provavelmente o mercado animado não estaria tão diversificado como está hoje, com diversos estúdios como a DreamWorks, a PIXAR, o Aardman, o Blue Sky e a Laika, todos se aventurando por esse mercado hollywoodiano dos filmes animados, lembrando que a PIXAR passa a fazer parte da Disney a partir de 2006, e depois o Blue Sky foi parte da aquisição que a Disney fez pela FOX, em 2019 – e depois encerrou as atividades do estúdio esse ano.

Antes da Renascença, a Disney era a única que fazia longas de animação em solo americano, e foi graças à sua habilidade de deixar o mercado mais atrativo nos anos noventa que esses outros estúdios e companhias viram nele uma mina de ouro, e se aventuraram por entre seus meios, diversificando o mercado.

Não só isso, mas a Renascença é importante por ser o período onde as pessoas passaram a voltar a olhar para a Disney especificamente. Entre os cinco filmes da primeira fase, e os dez ao todo, estão muitos dos momentos mais icônicos de sua filmografia, momentos que vem a cabeça imediatamente quando o assunto é Disney. O estúdio conseguiu se remodelar e sair da obscuridade onde se encontrava, e se vender para uma nova geração, conseguindo encantar e fazer parte da infância de todo um público de forma que há tempos não conseguia.

Assim, toda a geração dos anos noventa foi remodelada pela Disney; a Disney fez parte de suas infâncias, e, de certa forma, de sua vida, a medida que sua escala saía dos filmes simplesmente e ia atingindo outros meios como a televisão e o merchandising. A Disney cresceu de tal maneira nesta época que começou a se tornar onipresente, estando em cada canto, coisa que acontece até hoje. Para todo lado que olhamos há algo da Disney, nem que seja a estampa de uma camisa ou a embalagem de um biscoito, e isso chegou em sua máxima potência nos anos noventa. Literalmente hoje ela é detentora de quase 50% do mercado cinematográfico.

A Disney se tornou relevante novamente e um grande pedaço da cultura pop, com suas músicas, seus personagens secundários e engraçados, seus vilões aterradores e seus visuais e sequências esplendorosos todos marcando época e entrando em nossas vidas. Quem cresceu nesta época, e até quem não cresceu, mas teve a oportunidade de ver esses filmes, carrega um pedaço deles consigo. Nem que seja a cena de abertura de O Rei Leão ou a música Aqui no Mar da Pequena Sereia. Esses filmes captaram toda a magia que a Disney possuía em abundância durante a Era de Ouro e a elevaram à máxima potência, encantando uma nova leva de pessoas cuja qual poderia ser alheia à toda significância da Disney se não fosse pelo seu ressurgimento na Renascença.

Mesmo cinquenta anos após encantar o público com A Branca de Neve e os Sete Anões, a casa do Mickey nos mostrava que ainda tinha muito o que percorrer e que não estava acabada, como muitos diziam estar. A Renascença, então, é um dos maiores retornos hollywoodianos de todos os tempos, tendo um impacto cultural imensurável, colecionando prêmios, críticas favoráveis e bilheterias estrondosas, e tocando muitas pessoas no caminho.

Bem-vinda de volta Disney. E obrigado pelas memórias.

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