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Morte no Nilo

Você já deve ter ouvido falar que Stephen King não gosta muito das adaptações de seus romances de terror. São poucos os filmes e séries que agradam a mente por traz de grandes sucessos literários como IT – A Coisa, Carrie, A Estranha, Misery entre outros. Se nos estendermos, muitos autores vão ficar ressentidos com as adaptações, principalmente as da primeira década deste século, quando os estúdios contratavam pessoas que pouco conheciam a obra original, e nem tinham a decência de ter consultoria com o autor – caso ele ou ela fossem vivos. Agatha Christie pode ter se contorcido em seu tumulo após o lançamento de Assassinato no Expresso do Oriente, adaptação de seu romance policial de 1934 para os cinemas em 2017, e que pode repetir ou não, com uma “sequência” da história do detetive Hercules Poirot em Morte no Nilo.

No longo, uma jovem empresária (Gal Gadot) acaba de se casar com o homem dos seus sonhos, e convida poucas pessoas próximas de seu círculo para uma viagem pelo Egito, durante a lua de mel do casal. Hercules Poirot (Kenneth Branagh) acaba sendo convidado por um conhecido da noiva, mas sua presença é premeditada para proteger a noiva que não se sente confortável durante a viagem. Suas desconfianças se tornam verdade quando a mesma aparece morta em seu quarto no navio. Um dos passageiros é o assassino, e Poirot precisa encontrar o culpado antes que mais alguém morra.

Eu posso ser uma das poucas pessoas que gostou de Expresso do Oriente. Mesmo que a quantidade de comédia tenha sido desmedida e tenha fugido um pouco do ar mais misterioso da proposta da história e do que a autora ficou conhecida. Morte no Nilo parece tentar corrigir esse erro desmedido em comedia, além de tentar já estabelecer certos pontos antes do assassinato realmente acontecer.

Durante os quarenta primeiros minutos conhecemos os personagens chave para o desenvolvimento da trama, e pouco a pouco vamos conhecendo mais profundamente a relação deles com a Linnet (Gadot), o que tem de contra ou que tem de a favor. Temos até uma cena bem explicativa e resumida para já determinar quem é quem, e a relação com a vitima para não ficarmos perdidos com as conversas e principalmente os olhares dados até o assassinato em si.

Isso pode ser visto tanto de uma forma boa, pois em Expresso do Oriente, só ficamos sabendo da relação de todos os personagens só no final do filme, parecendo um grande deus ex-machina para justificar tudo que tinha acontecido. No Expresso, existe peças ao longo da trama que mostram um pouco, mas o texto e explicações de Poirot se tornam tão confusas que você precisa reassistir várias vezes para compreender onde ele quer chegar, e ainda precisa ler manchetes que dão pistas rápidas, como se lêssemos como a Makkari.

Já em Morte no Nilo essas peças são diluídas bem no primeiro ato gigantesco, embasando todo mundo. Mesmo com as explicações confusas e rápidas de Poirot – que não mudaram nada – você compreende o que acontece em cena, e as conexões que Poirot descreve são mais visualmente compreensíveis.

Mesmo que logo de cara já saibamos o que aconteceu, porque é óbvio, a história faz você duvidar de todo mundo, e transfere o que você já tinha como certo para um novo suspeito, e quando a revelação acontece, parece que você perdeu alguma coisa no meio, pois o terceiro ato acaba se apressando para concluir com o pico de adrenalina que o filme construiu, mais sombrio com mais consequências e menos comédia destoante da trama.

Você vai acabar se surpreendendo com vários personagens, mas gostaria de destacar dois. Primeiro Sophie Okonedo, que vive a cantora Salome Otterbourne. Já conhecemos ela de Ratched, a única personagem que realmente entregou atuação e que merecia uma indicação, e mais recentemente por A Roda do Tempo. E a segunda é Emma Machie, que muitos devem conhecer por Sex Education. Ela está fazendo algo inimaginável aqui, você se surpreende pela atuação e entrega dela, fato que confirma que ela é a melhor atriz da série da Netflix.

Morte no Nilo pode ter seu publico bem definido, só aqueles que gostaram de Assassinato no Expresso do Oriente – como eu – ou um público que mesmo que não tenha gostado do Expresso, pode gostar do direcionamento mais sério que o filme tenta seguir, mas vai ter seus percalços. Não é um filme que vai agradar a todos, já deixo aqui bem claro, mas é um filme que conta com um elenco gigantesco e de grande renome, alguns estão bem manchados, mas que entrega um mistério inesperado, principalmente com a sequencia de mortes que vai acontecendo ao longo da história, que está mais centrada em apresentar um contexto antes para não ter a surpresa negativa de um deus ex-machina acontecendo para resolver o problema, e um texto mais consciente de que o público não pensa como Hercules Poirot.

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